Com a criação da Seleção Masculina Sub 23, comissões técnicas iniciam trabalho conjunto para formar novos talentos, integrar categorias e ampliar o recrutamento de jogadores no Brasil e no exterior.
A criação da Seleção Brasileira Masculina Sub 23 de flag football é parte de um projeto que pretende estabelecer uma continuidade na formação dos atletas, desde as categorias de base até a equipe principal. Mais do que preparar jogadores para uma nova seleção, a proposta é construir uma metodologia de trabalho compartilhada, que acompanhe o desenvolvimento dos atletas ao longo de suas trajetórias.
Em entrevistas ao Flag Football Brasil, Lucas David, treinador principal da Sub 23, e Heitor Medeiros, responsável pela Seleção Masculina Adulta, explicaram como essa integração está sendo construída e quais são os planos para os próximos ciclos internacionais.
O trabalho já começou com reuniões entre as comissões técnicas, que buscam estabelecer conceitos de jogo, métodos de treinamento e critérios de acompanhamento dos atletas. A iniciativa também envolve novas estratégias de recrutamento e a possibilidade de aproximar as seleções em atividades de preparação.
Sub 23: uma etapa de formação, não apenas uma nova seleção
O primeiro training camp da Seleção Masculina Sub 23 aconteceu nos dias 10 e 11 de outubro, no Parque CERET, em São Paulo. Foram convocados 40 atletas de 27 equipes, com idades entre 16 e 23 anos, para uma avaliação que dará origem ao primeiro grupo de 25 jogadores.
Para Lucas David, o papel da nova categoria vai além de identificar os melhores talentos disponíveis. O objetivo é desenvolver aspectos técnicos e táticos que muitas vezes não aparecem nas estatísticas, mas fazem diferença quando um jogador chega ao nível internacional.
“O nosso objetivo é servir de instrumento de amadurecimento tático e técnico para os jogadores da faixa etária, mirando entregar os jogadores para a seleção principal com um o famoso ‘QI de jogo’ cada vez maior.”
A escolha dos convocados levou em consideração diferentes estágios de desenvolvimento. Entre os mais jovens, a comissão buscou jogadores com maior potencial de evolução. Já entre os atletas próximos do limite de idade, a prioridade foi identificar aqueles que precisam de poucos ajustes para estar prontos para a Seleção Adulta.
O grupo também recebeu jogadores que integraram a Seleção Sub 17 campeã no Panamá, dando sequência ao processo de desenvolvimento desses atletas dentro do Brasil Onças.
Segundo Lucas, o primeiro encontro superou as expectativas da comissão técnica, tanto pela qualidade dos jogadores quanto pela rapidez com que conseguiram se entrosar.

Uma filosofia de jogo compartilhada
A integração entre as seleções é um dos pilares do projeto. Lucas confirmou que as comissões da Sub 23 e da Seleção Adulta já realizaram reuniões para estabelecer uma base de trabalho comum.
Isso não significa que as equipes necessariamente utilizarão os mesmos playbooks, mas que deverão compartilhar conceitos, esquemas táticos e uma filosofia de jogo.
Heitor Medeiros explica que a proposta é criar um processo de formação mais contínuo, inspirado em modelos utilizados em outros esportes e países, como o rugby da Nova Zelândia e as categorias de base do Barcelona, no futebol.
A ideia é que os jogadores avancem pelas categorias já familiarizados com a linguagem, a leitura de jogo e os princípios táticos utilizados pela Seleção Brasileira.
“Estamos realizando reuniões de alinhamento junto a todas as categorias da seleção, cujo objetivo é desenvolver um programa de desenvolvimento dos atletas.”
Esse trabalho começa a ganhar forma no ciclo de 2027 e pretende conectar as categorias desde a Sub 15 até a Seleção Adulta.
Na prática, uma das primeiras medidas já adotadas foi o compartilhamento dos vídeos do training camp da Sub 23 no Hudl do Brasil Onças. Assim, a comissão da equipe principal pode acompanhar as avaliações, observar o desempenho dos jovens e identificar possíveis nomes para futuras convocações.
Treinamentos conjuntos e oportunidades na Seleção Adulta
Entre as propostas discutidas pelas comissões está a realização de períodos de treinamento conjuntos, permitindo que atletas da Sub 23 participem de atividades com a equipe principal.
Heitor também apresentou a possibilidade de utilizar a Sub 23 como scout team durante a preparação para competições internacionais. Nesse modelo, os jovens reproduziriam as características e jogadas dos adversários da Seleção Adulta, ajudando nos treinamentos.
Além de contribuir para a preparação da equipe principal, a experiência permitiria que os atletas mais jovens enfrentassem jogadores de nível internacional e fossem observados de perto pelos treinadores.
“Esses atletas da base conseguem ser testados ao vivo contra a melhor competição possível, além de uma grande ajuda na preparação.”
A transição para a Seleção Adulta, porém, não seguirá uma idade ou um prazo preestabelecido.
Segundo Lucas, cada jogador apresenta um ritmo diferente de amadurecimento. Heitor complementa que atletas que demonstrarem condições de competir pela equipe principal poderão ser convidados para períodos de treinamento e avaliação. Caso sejam convocados, passarão a integrar a Seleção Adulta.
Alguns nomes da Sub 23 já foram recomendados pela comissão de Lucas para acompanhamento da equipe principal.
Continental de 2027 é prioridade no caminho para Los Angeles
A estruturação desse programa acontece em um momento importante para o flag football brasileiro. A Seleção Masculina Adulta tem como principal objetivo imediato o Campeonato Continental de 2027, competição que faz parte do caminho de classificação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028.
Heitor antecipa mudanças na forma de recrutamento e na composição do elenco, com atenção especial à experiência internacional e ao tempo de dedicação dos atletas à modalidade.
O treinador acredita que alguns jogadores da Sub 23 poderão integrar o grupo de preparação para o Continental, mas reforça que o processo de formação não deve ser acelerado.
A proposta é preparar atletas capazes de chegar à Seleção Adulta não apenas para ocupar uma vaga, mas para competir em alto nível.
Recrutamento de atletas também mira o exterior
Outra frente do planejamento envolve a identificação de talentos brasileiros que vivem ou atuam fora do país.
Heitor explica que o recrutamento da Seleção Adulta será dividido em três caminhos: jogadores das categorias de base, atletas que competem no Brasil e talentos identificados no exterior.
A presença de jogadores com trajetória internacional já faz parte da realidade das seleções brasileiras, com exemplos como Edimar, na masculina, e Ellen Bruna e Olivia, na feminina.
Recentemente, uma avaliação de atletas realizada na Flórida, nos Estados Unidos, também trouxe atenção para a possibilidade de identificar jogadores com dupla cidadania.
Heitor confirmou que já existe uma lista de atletas que vivem no exterior e deverão participar do processo de avaliação, incluindo brasileiros e norte-americanos naturalizados ou em processo de naturalização.
“Procurar talentos brasileiros pelo mundo todo, esse está sendo um dos meus trabalhos atualmente, procurar e recrutar esses atletas, aumentando o nível de competitividade dentro do Onças.”
A Sub 23 também poderá incorporar jogadores identificados fora do Brasil. Segundo Lucas, a comissão mantém um trabalho contínuo de observação e considera atletas com passaporte brasileiro que estejam dentro da faixa etária do projeto.
A ampliação do recrutamento busca aumentar a concorrência pelas vagas e reunir jogadores com diferentes experiências de formação. A participação em competições internacionais dependerá do cumprimento dos critérios de elegibilidade aplicáveis.
Sem calendário internacional, Sub 23 busca experiências competitivas
Embora tenha um papel definido no planejamento técnico, a Sub 23 ainda não possui um calendário competitivo para 2027.
Atualmente, a Federação Internacional de Futebol Americano (IFAF) não organiza campeonatos mundiais ou continentais oficiais de flag football nessa categoria.
O primeiro compromisso previsto será o Torneio de Seleções Estaduais, em fevereiro de 2027, quando 12 atletas representarão o Brasil Onças. Após a competição, a comissão técnica fará uma nova avaliação do elenco para dar início ao próximo ciclo.
Lucas explica que a equipe segue acompanhando possíveis torneios e eventos que possam oferecer experiências relevantes aos jogadores.
A ausência de competições internacionais regulares torna ainda mais importante a proposta de integração com a Seleção Adulta, oferecendo oportunidades de treinamento e desenvolvimento enquanto o calendário da nova categoria é construído.
Um projeto que também passa pelos treinadores dos clubes
Para Heitor, o desenvolvimento das seleções brasileiras não depende apenas da escolha dos melhores jogadores. É preciso melhorar também as condições em que esses atletas são formados.
O treinador lembra que as comissões nacionais têm contato limitado com os jogadores ao longo do ano. São os treinadores dos clubes que acompanham sua evolução diariamente e têm papel central na preparação dos futuros atletas da Seleção Brasileira.
Por isso, uma das propostas para o próximo ciclo é compartilhar o conhecimento adquirido nas competições internacionais e no contato com outras seleções, por meio de encontros, clínicas e atividades voltadas à formação de treinadores.
Heitor acredita que o fortalecimento das competições nacionais e a capacitação de quem trabalha diretamente com os atletas são fundamentais para que o Brasil consiga manter um nível competitivo internacional.
“A ideia do projeto é não depender de ‘Talentos geracionais’ ou ‘outliers’ para o Brasil estar entre os melhores, e sim, ser algo estruturado onde sempre estamos desenvolvendo talentos.”
Essa visão também aparece na forma como Lucas David projeta o futuro da Sub 23.
O treinador revelou que a seleção de transição foi inicialmente pensada como Sub 20, mas passou a Sub 23 para atender às necessidades do cenário atual. Na sua avaliação, o sucesso do projeto poderá levar a uma nova revisão dessa faixa etária.
“Na minha visão, a Seleção Sub23 terá atingido os seus objetivos quando duas coisas acontecerem: a média de idade da seleção adulta baixar ao passo que os resultados internacionais melhorem e, por mais irônico que pareça, quando ela deixar de existir.”
Para Lucas, se a Seleção Adulta passar a receber atletas cada vez mais jovens e preparados, uma categoria de transição até os 23 anos poderá deixar de ser necessária.
Com as primeiras atividades já realizadas e novas ações previstas para 2027, as comissões técnicas começam a colocar em prática uma proposta de formação que busca conectar as diferentes gerações do flag football brasileiro.
O desafio agora será dar continuidade ao trabalho, ampliar as oportunidades de desenvolvimento e transformar esse planejamento em resultados dentro de campo.

