Como dados e inteligência artificial ajudaram o scout da Seleção Brasileira no Mundial

A Seleção Brasileira Masculina levou para o Mundial de Flag Football de 2026, em Düsseldorf, uma estrutura de scout baseada em análise de dados, relatórios de tendências e inteligência artificial para apoiar a preparação dos jogos e as decisões da comissão técnica durante as partidas.

O projeto foi desenvolvido por Felipe Gomes Nunes e Victor Silva, que já discutiam formas de aplicar dados ao scout no flag football desde 2023.

Antes de chegar à Seleção principal, a dupla acumulou experiências em outros contextos. Em 2025, realizou um trabalho de scout para o Flag Kings durante a Superfinal Masculina. No ano seguinte, aplicou a metodologia com a Seleção Brasileira Masculina Sub-17 nos Jogos da Juventude.

A partir dessas experiências, surgiu a possibilidade de levar o projeto para uma equipe da Seleção principal visando o Mundial.

“Evoluímos a cada projeto e conversamos com a comissão técnica sobre a possibilidade de realizarmos esse trabalho junto com uma equipe visando o Mundial”, explica Felipe.

Nesta primeira experiência, o projeto foi aplicado apenas à Seleção Masculina por questões de alinhamento e prazo.

Do vídeo para uma base de dados

O trabalho parte da análise de vídeos, mas vai além da observação convencional dos jogos.

Cada jogada é classificada e transformada em informação estruturada. A base foi organizada em três frentes principais: situação de jogo, ataque e defesa.

Nas análises ofensivas e defensivas, foram registrados elementos como formações, conceitos, jogadas e jogadores. Já a parte situacional reuniu informações como posição de campo, descida, objetivo da jogada e outros dados que poderiam ser cruzados posteriormente.

A proposta não é substituir a leitura dos treinadores, mas organizar o estudo e ajudar a confirmar ou identificar tendências.

“Os dados ajudam a organizar melhor o estudo e confirmar tendências vistas em vídeos, além de trazer novos insights a partir de análises para direcionar melhor o estudo de vídeo, principalmente com o auxílio da inteligência artificial”, explica Felipe.

O head coach Heitor Medeiros durante o Mundial da Alemanha 2026 (Foto: Grasiela Gonzaga)

Preparação antes de cada jogo

Para o Mundial, o trabalho começou pelos adversários da fase de grupos.

Partidas de competições anteriores foram classificadas para construir uma base inicial sobre o comportamento das seleções que o Brasil enfrentaria.

Conforme o torneio avançava e novos confrontos eram definidos, o processo continuava com a classificação dos próximos adversários.

Antes de cada partida, a comissão técnica recebia um relatório com tendências e indicadores considerados relevantes.

“Todo pré-jogo era rodado o scout com relatório de tendências, o que faziam, e isso era passado para os atletas nas reuniões pré-jogo, junto, por exemplo, do desenho das jogadas dos times”, explica Heitor Medeiros, head coach da Seleção Brasileira Masculina.

O trabalho incluía também análises sobre o próprio Brasil, com estudos de tendências e tomadas de decisão da equipe ao longo da competição.

Quando o dado vira decisão dentro do jogo

O uso das informações não terminava nas reuniões de preparação.

Durante algumas partidas, a equipe de scout mantinha contato com a comissão técnica para reforçar tendências identificadas anteriormente.

A partir da formação e dos jogadores utilizados pelo adversário em determinada situação, os treinadores conseguiam antecipar possibilidades e comunicar ajustes para quem estava em campo.

Segundo Heitor, isso aconteceu diversas vezes durante o Mundial.

Um exemplo veio no confronto contra a Alemanha.

O scout identificou que, em situações de terceira descida, a equipe alemã recorria com frequência a conceitos verticais com combinações de rotas altas e baixas.

A informação permitia que a defesa brasileira preparasse uma resposta específica para aquela situação.

“Quando sabíamos disso, o Coach Kinho já chamava Cover 2 para dar match no conceito, e quem estava no fundo já descia muito rápido pós-snap para tirar a leitura do quarterback”, explica Heitor.

Segundo o treinador, a estratégia gerou diversos passes incompletos e também uma interceptação.

O caso ajuda a mostrar a aplicação prática do projeto: a informação coletada anteriormente deixava de ser apenas um dado em um relatório e passava a orientar decisões dentro da partida.

Onde entra a inteligência artificial

A inteligência artificial foi usada principalmente para acelerar a organização, consulta e análise das informações.

Ela auxiliou na construção do site que concentrava os dados, na produção dos relatórios e no desenvolvimento de um agente GPT criado especificamente para o projeto.

O agente funcionava como um chat voltado à análise da base construída pela equipe de scout.

Reprodução do LinkedIn

Em vez de buscar informações externas, ele consultava apenas os dados previamente classificados pelo próprio projeto.

“O destaque ficou para o agente GPT, que era um chat construído para análise de dados e contextualizado ao flag football a partir das consultas à nossa base real para criar insights, relatórios e análises tanto para nosso time de scout quanto para os coaches e, consequentemente, passando para os jogadores”, explica Felipe.

Segundo ele, limitar as consultas à própria base também fazia parte do controle das informações utilizadas pelo sistema.

Na prática, a inteligência artificial não substituía o trabalho de assistir, interpretar e classificar os jogos.

Ela ajudava principalmente a consultar e cruzar com mais rapidez uma quantidade maior de informações já produzidas pela equipe.

Um processo que também exige adaptação dos atletas

Para Heitor, a experiência mostrou que o avanço desse tipo de trabalho não depende apenas da capacidade de produzir bons relatórios.

Os próprios atletas também precisam se acostumar a receber esse volume de informação e transformá-lo rapidamente em execução dentro de campo.

“Mesmo parecendo fácil, quando os atletas não estão acostumados a seguir ou ter esse tipo de informação, podem demorar para executar ou fazer as jogadas”, explica.

Por isso, a intenção da comissão técnica é tornar esse processo mais natural ao longo dos próximos ciclos.

A expectativa também é ampliar o uso desse tipo de análise.

“Queremos implementar para todas as seleções e até para o flag no Brasil, onde os times possam rodar seus próprios sistemas”, afirma Heitor.

Reproduções do LinkedIn

Dados como parte do próximo ciclo

Felipe e Victor também enxergam espaço para que dados e tecnologia estejam cada vez mais presentes no flag football brasileiro.

O potencial passa tanto pela análise de adversários no curto prazo quanto pela construção de bases que permitam estudar o esporte ao longo do tempo.

Mas essa evolução também depende de organização.

Segundo Felipe, ampliar o uso de dados passa por criar padrões de coleta e classificação que permitam trabalhar com informações consistentes.

“Isso passa também por um processo de padronização e organização de diversos pontos do esporte para ter qualidade na informação”, afirma Felipe.

Com a estreia olímpica do flag football em Los Angeles 2028 no horizonte, ferramentas de análise de desempenho, scout e tecnologia passam a fazer parte de uma preparação cada vez mais detalhada.

A experiência do Mundial de 2026 foi um primeiro passo para testar como esse tipo de informação pode sair da tela, chegar à comissão técnica e, em alguns casos, ajudar a antecipar o que acontece na jogada seguinte.