Entre acertos, reflexões e boas surpresas, o campeonato internacional realizado em Leme mostrou que é possível pensar o flag football para além das quatro linhas.
Por Grasiela Gonzaga | Fundadora do Flag Football Brasil
Quem acompanha o flag football brasileiro desde o início de sua “era moderna” sabe o quanto foi difícil chegar até aqui. Construímos boa parte desse esporte com as próprias mãos, poucos recursos, muito trabalho voluntário e uma vontade enorme de fazer as coisas acontecerem.
Talvez por conhecer tão bem essa realidade, confesso que recebi o anúncio do Brasil Flag World Championship (BFWC) com certa desconfiança.
Toda aquela comunicação produzida com inteligência artificial, as promessas de uma estrutura gigante e a proposta de um campeonato muito maior do que qualquer coisa que estávamos acostumados a ver no Brasil me fizeram questionar se tudo aquilo realmente sairia do papel.
Era uma proposta bastante ambiciosa para a nossa realidade, mas o campeonato aconteceu. E, felizmente, minhas primeiras impressões estavam erradas.
Realizado entre 31 de outubro e 2 de novembro, no Clube de Campo Empyreo, em Leme (SP), o BFWC reuniu equipes brasileiras e internacionais nas categorias masculina, feminina, Misto Sub 12 e Misto Sub 15.
Ao acompanhar o evento e conversar com pessoas que viveram os três dias de competição, o retorno foi amplamente positivo. Organização, transparência, facilidade de comunicação e uma estrutura que, sinceramente, ainda não tínhamos visto nessa dimensão em um campeonato de flag football no Brasil.
E isso merece ser reconhecido.
Para entender o tamanho dessa conquista, é preciso conhecer de onde viemos
O flag football brasileiro começou a ganhar forma no início dos anos 2000. Por volta de 2012, começamos a construir uma organização mais consistente, com competições, seleções e projetos que ajudaram a modalidade a crescer.
Gosto de pensar que nosso esporte passou muito tempo tentando ficar de pé. Depois começou a engatinhar. Hoje, finalmente, estamos caminhando e até arriscando algumas corridinhas… mas quem vive esse esporte há bastante tempo sabe que nada foi fácil.
Durante muitos anos, nosso maior objetivo era simplesmente conseguir colocar os jogos em campo. Organizamos campeonatos com orçamentos mínimos, dependemos de voluntários, improvisamos estruturas e encontramos soluções para dificuldades que faziam parte da nossa realidade.
Quem nunca participou desse processo talvez não entenda por que fiquei tão feliz ao encontrar banheiros limpos, abastecidos com papel, uma praça de alimentação organizada, arquibancadas, espaços de convivência e uma equipe numerosa trabalhando para fazer tudo funcionar. Pode parecer pouco. Mas não é.
O Clube de Campo Empyreo já é uma referência de estrutura para o flag football brasileiro. O BFWC conseguiu aproveitar essa vantagem e ir além, oferecendo uma experiência que não se limitou às quatro linhas.
A organização conseguiu reunir patrocinadores de diferentes segmentos, embora não seja possível dimensionar quanto cada parceria representou financeiramente, é razoável imaginar que esse apoio tenha feito diferença na estrutura entregue.
Esse é um caminho que precisamos explorar cada vez mais. Buscar parceiros, apresentar projetos e mostrar que o flag football tem valor para quem investe no esporte pode ajudar a ampliar nossas possibilidades e reduzir a dependência dos recursos dos próprios atletas e organizadores.
O encontro de gerações foi uma das coisas mais emocionantes do campeonato
Uma das decisões mais acertadas foi reunir categorias de base e adultas no mesmo espaço.
Ver crianças jogando flag football já é emocionante para quem começou no esporte depois de adulto. Muitos de nós descobrimos a modalidade aos 20, 30 anos ou até mais tarde. Aprendemos a lançar, receber, puxar flags e entender o jogo quando já tínhamos uma vida inteira de experiências esportivas.
Agora vemos crianças fazendo tudo isso com uma naturalidade impressionante… e o mais legal aconteceu também fora de campo. Entre uma partida e outra, aquelas crianças puderam assistir aos jogos dos adultos, conhecer novos atletas, torcer por equipes e encontrar novos ídolos.
Uma criança que passa três dias cercada de flag football, convivendo com atletas de diferentes equipes e países, volta para casa com muito mais do que lembranças de um campeonato. Volta com referências, sonhos e a percepção de que faz parte de algo maior.
E nós, que começamos essa história quando praticamente não existiam crianças jogando flag no Brasil, temos o privilégio de testemunhar essa mudança.
O alojamento oferecido às equipes de base também merece destaque. Pelos relatos de quem acompanhou a criançada durante o evento, a experiência foi bastante positiva. É um cuidado importante para tornar competições desse porte mais acessíveis a projetos que trabalham com jovens atletas.
Um olhar para a participação das meninas
A presença das categorias de base também trouxe uma reflexão importante sobre o desenvolvimento do flag football feminino.
As competições foram disputadas na categoria Misto, com exigência de pelo menos uma menina em campo.
Entendo que essa decisão considera a realidade atual dos projetos e facilita a formação das equipes. A base feminina ainda tem um caminho maior a percorrer em número de praticantes e oportunidades. Ao mesmo tempo, acredito que podemos começar a pensar em maneiras de ampliar gradualmente essa participação.
Quanto mais meninas tiverem espaço para jogar, assumir protagonismo e desenvolver suas habilidades desde cedo, maiores serão as possibilidades de crescimento da modalidade.
É um desafio que vai muito além de um campeonato e que precisa ser construído em conjunto por clubes, projetos, treinadores e organizadores.
Um campeonato também precisa ser um evento
Outro acerto foi pensar em atividades além das partidas.
As palestras e a festa de Halloween, principalmente, criou um momento de convivência entre equipes, famílias e participantes.
Para futuras edições, acredito que valha uma atenção especial à presença de bebidas alcoólicas em eventos que reúnem tantas crianças e adolescentes, muitos deles viajando sob a responsabilidade de treinadores e outros adultos que não são seus responsáveis legais.
São cuidados que ajudam a tornar a experiência ainda mais adequada para todos os públicos.
Diferentes objetivos, a mesma experiência
Outra característica interessante do BFWC foi a diversidade de motivações das equipes brasileiras.
Havia equipes formadas por atletas de diferentes clubes, aproveitando a oportunidade para jogar juntos, trocar experiências e se divertir no fim da temporada.
Outras estavam ali levando a competição a sério, aproveitando os jogos como preparação para a Superfinal do Campeonato Brasileiro, que acontece ainda neste mês de novembro.
E havia também aqueles que simplesmente queriam viver a experiência de participar de um grande evento internacional.
Não importa qual tenha sido o objetivo inicial. A impressão que ficou é que todos encontraram motivos para sair satisfeitos.
Ouvi algumas críticas pontuais ao regulamento, mas que a organização soube contornar com cuidado e transparência.
Uma curiosidade que tive foi saber como os atletas sentiram a redução do tempo de jogo para dois tempos de 15 minutos, em vez dos tradicionais 20 minutos.
As respostas foram parecidas: os jogos ficaram mais rápidos, a experiência dentro de campo mudou, mas, considerando toda a estrutura e a oportunidade de participar do evento, valeu o sacrifício.
Achei interessante perceber essa disposição dos participantes em avaliar o campeonato como uma experiência completa, e não apenas pelo que aconteceu durante os jogos.
O campeonato também recebeu equipes de México, Chile, Uruguai e Peru. Os visitantes pareciam animados e aproveitaram bastante a experiência.
Em relação ao nível técnico, confesso que tinha expectativas um pouco maiores sobre algumas das equipes internacionais. Mas esse intercâmbio está apenas começando, e reunir clubes de diferentes países já representa uma oportunidade importante para todos os envolvidos.
Com a continuidade do evento, existe espaço para ampliar essa participação, atrair equipes de outras regiões e fortalecer ainda mais o nível da competição.
Os campeões dentro de campo. E a vitória de todos nós.
É claro que o campeonato também teve seus vencedores.
O Caniballs conquistou o título masculino ao superar o BH Wolves por 26 a 24. No feminino, o Vasco Almirantes venceu o Caipiras Flag Football por 7 a 0.
Nas categorias de base, o Tribais fez a festa em dose dupla: conquistou o Misto Sub 15, vencendo o Braves Academy por 7 a 0, e o Misto Sub 12, superando o Flag Football For Fun por 13 a 0.
Os quatro campeões terminaram a competição invictos, mas, desta vez, vale olhar além dos resultados. Porque, quando penso no que aconteceu em Leme, acredito que a maior vitória tenha sido coletiva.
Venceram os atletas, as crianças, os treinadores, as famílias, os árbitros e todos que trabalham diariamente para desenvolver a modalidade.
E venceu o próprio flag football brasileiro, que ganhou uma nova referência do que é possível construir.
Um grande campeonato internacional não precisa se chamar Mundial
Aqui entra uma reflexão que me acompanha desde o anúncio do evento: o nome.
O Brasil Flag World Championship foi um grande campeonato internacional. E isso, por si só, já é motivo de orgulho.
Acredito que temos uma oportunidade de valorizar cada vez mais a identidade das nossas competições, sem a necessidade de associar sua importância a uma dimensão mundial.
É uma discussão interessante sobre como construímos reconhecimento e tradição no esporte.
Os estadunidenses se auto proclamam World Champions em seus campeonatos nacionais. É uma tradição daquele mercado que acha que o Mundo gira ao redor dele, não necessariamente um modelo que precisamos seguir.
Na Europa, existem inúmeros torneios internacionais, alguns com décadas de história, que construíram sua reputação a partir de uma identidade própria, da qualidade da competição e da experiência oferecida aos participantes.
O próprio site do BFWC reconhece que se trata de um torneio internacional de clubes, diferente do Campeonato Mundial de seleções organizado pela IFAF.
Vejo muito potencial para que o BFWC construa uma identidade forte, atraia equipes de outros continentes e se torne uma referência no calendário internacional de clubes.
O reconhecimento de um campeonato vem, acima de tudo, daquilo que ele entrega e da história que constrói.
O crescimento do esporte precisa ser um esforço coletivo
O BFWC também nos convida a refletir sobre o papel das entidades que organizam e representam o flag football brasileiro.
Sabemos o quanto é trabalhoso manter um calendário competitivo, organizar campeonatos e atender às necessidades de uma modalidade que cresce a cada ano.
Por isso, acredito que iniciativas independentes como essa contribuem muito para o desenvolvimento do esporte e merecem ser reconhecidas por toda a comunidade, incluindo nossas entidades oficiais.
Não é necessário que uma competição seja organizada por uma confederação ou federação para que ela tenha impacto positivo na modalidade.
Pelo contrário, quanto mais pessoas e organizações estiverem dispostas a investir tempo, recursos e trabalho no flag football, maiores serão nossas possibilidades de crescimento.
Vejo aí uma oportunidade de aproximação e colaboração. O reconhecimento e o apoio a iniciativas independentes podem fortalecer o calendário, ampliar oportunidades para os atletas e até ajudar a distribuir melhor as responsabilidades de desenvolver o esporte.
Afinal, esse é um trabalho que ganha muito quando é feito coletivamente.
O flag football precisa deixar de fazer eventos apenas para quem joga
Há muito tempo defendo que precisamos deixar de organizar campeonatos pensando apenas em quem está dentro de campo.
O BFWC mostrou, na prática, que é possível começar a mudar essa realidade.
Durante muitos anos, nossa preocupação era ter campo, arbitragem, tabela, água e condições mínimas para jogar. Quando tudo isso funcionava, já considerávamos uma vitória.
Era o que conseguíamos fazer com os recursos disponíveis, mas o esporte cresceu e nossas ambições também precisam crescer. Um campeonato precisa ser interessante para quem está dentro de campo, mas também para quem está fora dele.
Precisamos pensar nas famílias que querem assistir aos filhos, nos amigos que vão torcer, nas crianças que estão conhecendo a modalidade pela primeira vez e nas pessoas que podem se apaixonar pelo flag football depois de assistir a uma partida.
Precisamos oferecer conforto, segurança, entretenimento e boas condições para que esse público queira voltar.
Isso não significa que todos os campeonatos precisem ter a mesma estrutura. Conheço bem as limitações financeiras e operacionais de quem organiza eventos no Brasil. Cada organização tem sua realidade e suas possibilidades.
Mas o BFWC nos oferece boas referências para repensar a experiência que queremos proporcionar.
Não basta fazer um campeonato para os atletas. Precisamos criar eventos que ajudem a desenvolver o esporte como um todo.
Los Angeles 2028 está logo ali. E depois?
O flag football fará sua estreia olímpica em Los Angeles 2028. É uma conquista histórica, mas precisamos pensar no que acontece depois.
Se queremos que o flag football permaneça no programa olímpico, precisamos fazer nossa parte para que ele continue crescendo. Não apenas nos Estados Unidos, mas também no Brasil, na América do Sul e em outras regiões do mundo.
Isso passa por desenvolver as categorias de base, especialmente entre as meninas, fortalecer nossos clubes, qualificar profissionais, ampliar o acesso ao esporte e criar competições que sejam atrativas para atletas e público.
Passa também por reconhecer e valorizar boas iniciativas, independentemente de onde elas surjam.
O BFWC não foi perfeito. Nenhum campeonato é.
Mas conseguiu entregar algo que considero muito importante neste momento da nossa história: uma nova referência do que podemos fazer.
Para quem acompanha e ajuda a construir o flag football brasileiro há quase duas décadas, é impossível não olhar para tudo isso com uma mistura de orgulho e emoção.
Lembro de quando tínhamos que fazer praticamente tudo sozinhos para conseguir jogar. De quando encontrar um campo já era uma conquista. De quando falar sobre o futuro da modalidade parecia um exercício de imaginação.
Hoje temos crianças jogando, equipes internacionais visitando nosso país, eventos com estruturas cada vez melhores e a perspectiva de ver nosso esporte nos Jogos Olímpicos.
Ainda temos muito trabalho pela frente. Mas também temos motivos para celebrar o caminho percorrido.
Minha esperança é que o maior legado do BFWC não seja apenas o campeonato que aconteceu em Leme, mas os próximos que serão organizados a partir de agora.
Que ele sirva de inspiração, provoque novas ideias e incentive outras organizações a pensar maior, cada uma dentro de suas possibilidades.
Porque quem ajudou a construir o flag football brasileiro sabe o quanto já fizemos com tão pouco. E agora começamos a descobrir o quanto ainda podemos fazer.

