Coleta realizada com 59 atletas em 2025 aponta a importância da aceleração curta, questiona relações simples entre força e velocidade e busca criar uma base nacional de dados da modalidade
Quanto rápido um atleta precisa ser para competir entre as principais equipes de flag football do Brasil? Até que ponto ser mais forte significa também ser mais rápido? E quais parâmetros físicos podem ajudar a definir o alto nível da modalidade?
Essas são algumas das perguntas que motivaram uma coleta realizada pela Alarcon Preparação Física durante a Superfinal Masculina de 2025. O levantamento reuniu dados de 59 atletas de nove equipes e representa um primeiro passo para construir referências sobre o perfil físico dos jogadores que disputam a elite nacional.
À frente do trabalho está Lucas Marcos da Costa Alarcon, preparador físico da Seleção Brasileira Masculina adulta de flag football desde 2023 e responsável pela Alarcon Preparação Física. Ele também atua como preparador físico do Locomotiva e trabalhou no Rio Preto Weilers entre 2022 e 2025. Em 2023, integrou ainda a preparação física do CFL Combine Brasil.
A competição reuniu 283 atletas de 16 equipes. Por isso, os próprios responsáveis pelo trabalho destacam que a amostra ainda é parcial e não permite estabelecer parâmetros definitivos.
O objetivo, neste momento, é começar a entender onde está o flag football brasileiro.
“Tanto no meu trabalho como preparador físico da seleção quanto na consultoria Alarcon, a motivação é compreender cada vez melhor o flag football. Quais são as demandas físicas da modalidade? O que determina o desempenho em termos físicos? Quais são os parâmetros do alto nível? Onde estamos atualmente?”, explica Alarcon.
Para ele, o crescimento do esporte e sua entrada no programa olímpico tornam esse tipo de discussão cada vez mais necessário.
“Se quisermos nos consolidar e permanecer no programa olímpico, essas perguntas precisam começar a ser respondidas. Tão importante quanto coletar os dados é divulgá-los, apresentá-los e debatê-los.”
A aceleração curta como ponto de partida
Uma das principais métricas avaliadas foi o sprint de aproximadamente cinco metros.
Além de ser um teste rápido e de baixo risco para os atletas, a distância busca representar uma capacidade presente constantemente no flag football: a aceleração em espaços curtos.
Na amostra analisada, a mediana ficou em 0,93 segundo, com resultados entre aproximadamente 0,76 e 1,10 segundo. Os 10% mais rápidos registraram tempos inferiores a 0,80 segundo.
A escolha também partiu de uma hipótese que Alarcon pretende continuar investigando.
“Embora isso ainda seja uma hipótese minha, acredito que o sprint curto esteja mais associado ao desempenho no flag football do que outros fatores.”
A característica faz sentido diante das situações encontradas durante uma partida. Recebedores precisam criar separação rapidamente, defensores precisam reagir às rotas e boa parte das disputas começa com acelerações realizadas em poucos metros.
Os dados da Superfinal também trouxeram uma diferença interessante quando os atletas foram agrupados de acordo com a classificação de suas equipes.
Entre os jogadores dos oito times mais bem colocados havia menos atletas com tempos muito lentos do que entre as equipes da metade inferior da classificação.
Isso não significa que os melhores times simplesmente tenham os jogadores mais rápidos. Os resultados dos dois grupos apresentaram bastante sobreposição.
A interpretação proposta pelo levantamento é outra: pode existir um determinado nível físico necessário para competir entre as melhores equipes.
Existe um piso físico para o alto nível?
A ideia de um possível “piso físico” aparece como uma das principais questões levantadas pelo estudo, mas ainda não como uma referência numérica definida.
Segundo Alarcon, estabelecer esse tipo de parâmetro neste momento seria precipitado.
“Hoje, sabemos quais são os parâmetros físicos mínimos da elite mundial? Não. Ainda seria precipitado estabelecer números definitivos.”
A discussão também não deve reduzir o desempenho de um atleta apenas às suas capacidades físicas.
Para ele, o rendimento no flag football envolve quatro componentes que atuam conjuntamente: técnico, tático, físico e psicológico.
“Esses componentes não podem ser separados. Pelo contrário: um pode potencializar ou limitar os demais.”
A preocupação está justamente em evitar que o desenvolvimento físico seja tratado como algo secundário diante dos aspectos técnicos e táticos do jogo.
“Acreditar que basta ‘jogar’ — ou seja, dominar os aspectos técnicos e táticos sem elevar o nível físico — é comprometer o rendimento global de um atleta ou de uma equipe.”
Na avaliação do preparador físico, o aumento da visibilidade da modalidade tende a ampliar também o número de atletas com capacidades físicas cada vez maiores.
“Sabemos que o flag football é uma modalidade marcada pela potência e pela velocidade. À medida que mais atletas de alto nível entrarem na modalidade e se desenvolverem, esse piso físico tenderá a subir.”
Mais força não significou maior velocidade
Outro ponto analisado foi a relação entre força e desempenho no sprint.
Entre os atletas que forneceram informações sobre seus números no agachamento, praticamente não apareceu relação entre levantar mais peso e correr os cinco metros mais rápido.
Em outras palavras, os jogadores que relataram os maiores números de força não foram necessariamente os mais rápidos na aceleração curta. Isso valeu tanto quando foi considerada a carga total levantada quanto quando ela foi comparada ao peso corporal do atleta.
Na prática, saber quanto um atleta agachava praticamente não ajudava a prever seu desempenho no sprint dentro daquela amostra.
Para Alarcon, o resultado não foi inesperado.
“Uma carga maior no agachamento não é garantia de maior velocidade.”
Existem, porém, limitações importantes nessa comparação.
Os valores de força foram autorrelatados pelos próprios atletas, sem um teste padronizado realizado durante a coleta. Isso pode afetar a precisão dos dados.
Também não significa que força seja pouco importante para o flag football.
“A ausência de correlação não deve levar os atletas à conclusão de que a força não é importante. Ela é extremamente importante.”
Outro fator é a individualidade. A relação entre capacidade de força e desempenho esportivo não necessariamente ocorre da mesma maneira em todos os atletas.
O dado mostra apenas que, nessa amostra e com esse método de coleta, ser mais forte no agachamento não foi suficiente para explicar quem acelerava melhor nos cinco metros.
Uma fotografia ainda parcial
O levantamento também possui limitações metodológicas que precisam ser consideradas antes de transformar os resultados em referências definitivas.
Além de envolver 59 dos 283 atletas inscritos na competição, o teste de sprint foi realizado com a retirada de um flag colocado a aproximadamente 30 centímetros do chão.
Protocolos internacionais podem utilizar fotocélulas posicionadas em alturas diferentes ou outros métodos de cronometragem. Essas diferenças dificultam comparações diretas entre os resultados.
Esse é um dos motivos pelos quais a Alarcon ainda não encontrou uma referência internacional adequada para colocar os números brasileiros lado a lado com dados da elite mundial.
“Existem pouquíssimos estudos que permitam estabelecer um protocolo padronizado e realizar comparações consistentes.”
A ausência dessas referências também mostra um problema mais amplo: ainda existe pouca produção de dados específicos sobre as demandas físicas do flag football.
Projeto pretende criar base nacional de dados
A coleta da Superfinal de 2025 não deverá ser uma iniciativa isolada.
A intenção é repetir o trabalho em outras competições e aumentar gradualmente o número de atletas avaliados.
“Queremos criar uma base nacional de dados sobre o alto nível, compreender onde nossos atletas estão e definir o que pode ser feito a partir dessas informações.”
O projeto também pretende ampliar a coleta para o flag feminino.
Existem obstáculos importantes. Viagens, custos e a própria logística das competições dificultam a aplicação de testes mais completos.
Realizar avaliações durante um campeonato significa trabalhar com atletas sujeitos à fadiga, diferentes horários de jogos e deslocamentos, além da necessidade de evitar qualquer atividade que possa aumentar o risco de lesão.
Em um cenário ideal, segundo Alarcon, os testes seriam feitos em um único centro, em uma data independente das competições, ou por meio de um protocolo remoto padronizado.
O que ainda falta medir
O sprint e os números de força representam apenas uma parte do perfil físico de um atleta de flag football.
Entre os próximos parâmetros que a equipe pretende analisar estão os saltos e a capacidade de mudança de direção — testes que, segundo Alarcon, já são realizados com atletas da seleção brasileira.
Em uma etapa posterior, a ideia seria avançar também para avaliações de agilidade.
A diferença é importante.
Mudança de direção mede a capacidade de realizar movimentos previamente determinados. Agilidade envolve também reagir a um estímulo ou decisão, aproximando o teste de situações encontradas durante uma partida.
Construir uma base maior e acompanhar esses dados ao longo dos próximos anos poderá ajudar a responder uma das perguntas levantadas pela própria coleta de 2025: como o perfil físico da elite brasileira vai mudar conforme o nível da modalidade aumentar?
Por enquanto, os números da Superfinal funcionam menos como uma nota de corte e mais como uma primeira referência.
O principal valor do levantamento está justamente nisso: começar a substituir percepções sobre o físico do jogador brasileiro por dados que possam ser comparados, discutidos e acompanhados ao longo do desenvolvimento do flag football no país.








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